
O Realismo Filosófico
É preciso definir o realismo filosófico para que possamos enxergar a própria matemática desse ponto de vista. Essa corrente da filosofia diz que existem na natureza elementos universais. A natureza está ao nosso redor quando caminhamos e percebemos uma árvore, por exemplo.
Segundo o realismo, essa árvore possui características universais: a sua essência de árvore, o seu conceito, a sua natureza. O meu intelecto capta imediatamente através da percepção essas características que estão dadas no ente que está diante de mim.
Tal como nas ideias platônicas, o realismo diz que existem essas essências, essas naturezas na realidade, mas estes dois pensamentos se divergem sobre onde se dá a existência dessas essências. Nisso Platão e Aristóteles divergem.
Segundo Platão, a essência dessas essências e naturezas estão em um reino à parte, o mundo das ideias e das formas platônicas. Já Aristóteles diz que elas estão nas coisas em si, ou seja, existem essas essências enquanto os particulares, aqueles que instanciam essas essências, também existem. Apesar da divergência, ambos são realistas do ponto de vista filosófico. O realismo é defender que as essências tem existência.
Nesse momento você pode se perguntar sobre a utilidade desse tipo de conhecimento, e pode entender que essa é uma questão muito abstrata e sem importância na sua vida prática. Iremos ver como isso impacta diretamente a sua vida cotidiana, e, na maior parte das vezes, sem que você se dê conta disso.
Para isso, vamos pensar em um conceito muito útil e que impacta a vida de todos nós, que é o conceito de justiça. Se você defende o realismo filosófico, esse conceito de justiça tem existência real, bastando que busquemos essa justiça cada vez mais; se você defende o antirrealismo, o conceito de justiça não tem existência, e isso acaba por relativizá-la.
Portanto o realismo filosófico é de suma importância para a sua vida prática e diária, e impacta de fato as nossas vidas, porque muitas leis são feitas com base em uma cosmovisão filosófica, seja pela via realista ou antirrealista.
Medidas e políticas públicas, por exemplo, são tomadas tendo por base a noção de bem comum. Se esse conceito de bem comum não tem uma natureza ou uma essência própria, não tem, portanto, uma realidade: ele é simplesmente uma coisa antirrealista que eu posso colocar a qualquer momento em uma política pública que se adeque a ela. Portanto, eu falo isso para trazer para vocês que esse debate “realismo versus antirrealismo” é de suma importância, e, para mim, é um dos debates mais importantes para a nossa era. Um dos grandes problemas da nossa era, segundo o meu ponto de vista, é o problema antirrealista.
O que é a Matemática, afinal de contas? O posicionamento que defenderei aqui é o da Matemática desde o ponto de vista realista. Isso quer dizer que quando estamos estudando um objeto da Matemática, estamos estudando uma coisa da realidade, que pode ser de uma forma platônica.
Assumimos, então, que a Matemática se trata da realidade, e quero propor um experimento de imaginação para vermos esse ponto com mais clareza: imaginemos a Era Jurássica. Estamos no período dos dinossauros, no qual não existia nenhuma mente humana, portanto, não existia nenhuma formulação do que chamamos hoje de Matemática, já que o conceito de número não existia.
Existia de fato cinco espécies de tiranossauros em determinada região? Existia uma relação entre os dinossauros? Esse é um dado daquela realidade que estava presente naquele momento ou é preciso uma mente humana para olhar para aquele universo jurássico e poder enxergar que há cinco espécies de tiranossauros, e enxergar que há uma relação entre eles, que um tiranossauro é maior que o outro, etc.
Todos hão de concordar que esses dados e essas características quantitativas da realidade estavam presentes já naquela época, mesmo não havendo ali nenhuma mente humana. Esse olhar para o passado, sem o homem, garante uma forma de argumentar em favor do realismo na Matemática, porque olhamos para o passado, percebemos e temos certeza de que o número está contido nele, assim como a relação. As estruturas (simetria, razão , etc) estão contidas lá.
E, mais ainda, você pode retornar até o momento anterior ao Big Bang, pois para uma lei física ser formulada matematicamente é necessário que a lei matemática seja anterior a ela. Ou seja, para que você possa formular a Lei da Gravitação Universal é necessário que você tenha a relação matemática antes disso. A Lei da Gravitação Universal não passa a funcionar porque Newton a colocou daquela forma, surgindo a Matemática depois. Ao contrário, parece que existe um passo anterior, ou seja, um realismo acerca da Matemática, e esse é o posicionamento que eu gostaria que você tivesse acerca dela, ou seja, ela trata de alguma coisa da realidade. Não precisa, nesse momento, se preocupar com qual coisa seria esta, mas ela trata de algo do real: é o que eu sempre digo “Estudar Matemática é estudar a realidade”.
E nesse posicionamento que eu defendo, que é um posicionamento aristotélico-tomista, você tem a Matemática como a ciência da quantidade e da estrutura. A Matemática entra como a ciência que abstrai da quantidade do ente real, ou seja, a formulação dela se dá na abstração do acidente da quantidade no ente real e do acidente da relação, que dá essas estruturas internas, ou na comparação com outros entes.
Portanto, a Matemática se apresenta para nós como a ciência da quantidade da estrutura, além de ser uma ciência que trata do mundo real, dos seus conceitos e dos seus objetos, que são reais e tem existência real.
As Verdades Matemáticas
A primeira característica dessas verdades matemática é que, se você olha para uma entidade da Matemática, a primeira coisa que você percebe é que ela é imutável, ou seja, nunca irá mudar. Por exemplo, 2 + 2 darão sempre 4.
Outro exemplo: o Teorema de Pitágoras também é válido para qualquer triângulo retângulo que você use. Portanto, há essa característica de imutabilidade. Ou seja, não há mudança uma vez que descobrimos esse ente, mas mesmo antes de descobri-lo, esse dado está em algum lugar e é imutável.
A segunda verdade é que esses entes são atemporais, ou seja, eles não tem dependência temporal. Desse modo, dois mais dois dará sempre quatro independentemente da época em que vivemos, independentemente do transcurso do tempo e de qualquer outra coisa: simplesmente é, ou seja, as verdades da Matemática se apresentam com essas características eternas de atemporalidade, no que nos parece que então fora do tempo e não há dependência do que acontece ao longo de uma linearidade temporal.
A terceira verdade é que estes entes são perfeitos. A definição de círculo perfeito é tão invejável que nós queremos alcançá-la nas outras ciências. Percebemos na realidade uma mesa circular, por exemplo, e olhando-a detalhadamente notamos que aquela mesa é uma aproximação dessa perfeição, desse conceito de circularidade definido na Matemática. Os objetos da Matemática, portanto, também se apresentam com essa característica de perfeição.
Além disso, também são imateriais. Peguemos o conceito de triangularidade e tentemos imaginá-lo. É possível imaginar o conceito de triangularidade? Não, porque ao imaginar este conceito você está imaginando um triângulo particular, seja ele triângulo isósceles, retângulo ou equilátero, mas não está imaginando o conceito, porque ele é imaterial, independe da matéria. A Matemática se apresenta também com a característica de imaterialidade, pois os objetos são imateriais.
Portanto, os objetos da Matemática são:
- imutáveis;
- atemporais;
- perfeitos;
- imateriais.
As Verdades Necessárias e o Mundo Possível
Por último, as verdades que a Matemática trouxe foi o que muito fascinou Platão, que foi a constatação de que as verdades matemáticas são necessárias. Uma vez que você demonstra um teorema e chega à conclusão do seu resultado, você entende o motivo de ele ser formulado daquela forma. Nesse momento, você está compreendendo uma característica de necessidade: há uma necessidade para que a soma dos quadrados dos catetos seja igual ao quadrado da hipotenusa, no triângulo retângulo. É necessário que seja assim.
Refiro-me a uma noção de uma ação humana, mas não é somente nisso que ocorre essa noção do mundo possível, que pode haver um mundo possível em que o copo de água. Ou seja, essa característica de haver diferentes possibilidades configura a noção de mundo possível.
Dito isso, vamos tomar uma proposição como exemplo para classificar mais este ponto: se dissermos que a neve é branca, essa proposição só é possível se puder ser verdadeira em algum mundo possível. Existe algum mundo possível em que a neve é branca? Existe, então ela é uma proposição possível.
Eu digo que a proposição é contingente se ela é verdadeira em algum mundo possível, mas não em todos. Por exemplo, existe algum mundo possível em que a neve poderia não ser branca? Possivelmente sim. Então, isso é uma característica de contingência.
Além disso, temos a noção de necessidade. A proposição é necessária se ela é verdadeira em todos os mundos possíveis. Eu pego o conjunto de mundos possíveis e vejo uma proposição, e essa proposição será necessária se para qualquer um desses mundos possíveis ela for verdadeira.
Agora, olhem para a Matemática. Você consegue imaginar um mundo possível onde 2 + 2 não seja igual a 4? Não. Isso quer dizer que a Matemática tem a capacidade de revelar as verdades que são necessárias, porque há uma necessidade desse conhecimento produzido. Portanto, esse conjunto de atributos (imutáveis, atemporais, perfeitos, imateriais e necessários), são o que chamamos de atributos semidivinos.
Os Atributos Semidivinos da Matemática
Há, de alguma forma, na Matemática, uma característica semidivina, e é isso que faz a posição agostiniana de colocar a Matemática no logos divino.
Ou seja, por ter esse conjunto de atributos semidivinos, ela se encaixa dentro do logos divinos, fazendo parte dele, segundo a visão agostiniana. Nessa visão cristã agostiniana, o logos é a razão do mundo, está no mundo. Portanto, quando falamos de uma Matemática realista, que está no mundo, e estudamos Matemática, também estamos estudando o logos. Com isso já começa a aparecer mais claramente a noção da importância da Matemática: ela tem uma tremenda capacidade de despertar o homem para a verdade.
E por que isso é importante? No Livro VII de A República, Platão recomendava para todas as pessoas que queriam entrar na vida pública, legislar na polis, etc., que estudassem Matemática, porque para ele a matemática tem a capacidade de apresentar a verdade para a alma do indivíduo. Segundo, também é muito conhecida a história que conta que Platão proibia a entrada na academia de pessoas que não soubessem matemática.
A verdade da matemática é uma verdade das formas, e as formas tem essa capacidade de geração de amor a si própria e podem buscar a verdade em outras áreas do conhecimento. Buscar, por exemplo, a verdade na ética e aplicar na própria legislação. Mas o que é importante, no posicionamento de Platão, que torna a matemática importante? Ela se apresenta para nós como a expressão máxima da capacidade de o homem de conhecer a verdade.
Além de dizer “existe a verdade”, ela nos diz: “existe a capacidade e a possibilidade de o homem conhecer a verdade”. Enxergando-a sob essa ótica, quem estuda matemática percebe e encontra nela verdades necessárias e verdadeiras, cujas consequências não pode deixar de considerar. Para o indivíduo, há, de fato, um grande despertar. É por isso que na tradição clássica muita importância foi dada ao estudo da matemática que antecedia ao estudo da filosofia, e esse estudo era contínuo também.
Você já pensou o que Platão, Aristóteles, Santo Alberto Magno, São Tomás de Aquino, Boécio, Descartes, Edmund Hussrl, Kant e Bernard Lonergan tem em comum além do fato de terem feito filosofia? É muito simples: todos eles sabiam matemática, absolutamente todos eles.
Edmund Husserl era matemático, tinha formação em Matemática. Kant também tinha uma forte formação matemática, e São Tomás de Aquino e estudou em Bologna. Ou seja, todos eles sabiam.
Não estou colocando a Matemática de uma maneira esotérica, pois não é esse objetivo, apenas digo que ela pode conduzir a alma até a verdade.
Conhecimento Matemático e o Conhecimento Científico
A importância de se conhecer a Matemática é que ela serve como uma espécie de antídoto contra o relativismo, porque você perceberá suas características, necessidades e atributos semidivinos, e a olhará de maneira realista. Mesmo que alguém o diga que a verdade é uma construção social, você não aceitará essa forma de pensamento, porque você percebeu os atributos de necessidade quando a estudou.
Um último motivo para estudar matemática é a conexão que ela tem com a ciência. Por que isso seria um motivo? Para responder a esta pergunta, contarei uma anedota que expressa a importância de se ter um pouco de conhecimento matemático. Provavelmente, a história não é verdadeira, mas ainda assim ela possui uma moral que vale a pena conhecer.
No século XIX, uma tzarina na Rússia chamou o famoso Euler, que era um exímio matemático, para um debate com Diderot, da Revolução Francesa. Era em São Petersburgo, e o debate seria sobre a existência de Deus, tema sobre o qual os dois discutiam. Conta-se, nessa anedota, que Diderot não sabia muita matemática, e não ligava para esse conhecimento. O debate era público, e em algum determinado momento Euler simplesmente falou algo como: “Veja bem: ”. Diderot nada respondeu, então Euler disse: “Lide com isso. Portanto, Deus existe.” Diderot não soube o que responder nem o que argumentar contra isso.
E não é exatamente isso que está acontecendo no nosso mundo hoje, com a ciência moderna? Não é que o argumento científico seja falso, mas é que as pessoas estão sendo caladas porque não tem como debater contra esse argumento científico e, em geral, ele está respaldado na matemática.
Por exemplo, quando há uma análise estatística sobre determinados dados, usam a variação, a distribuição normal e concluem um resultado que tem um impacto prático diário na vida de todos. A Matemática, então, apresenta-se como uma maneira de argumentar, e esse também é um motivo pelo qual você deveria estudá-la, porque você tem de saber o que de fato estão legislando e falando sobre a sua vida, e o que está impactando diretamente até mesmo a educação dos seus filhos.
Para deixar mais claro como funciona a relação entre Matemática e ciência, é interessante notar que ela está adentrando em todas as áreas do conhecimento científico moderno. Existem dois filósofos que servem como exemplo: Jacques Maritain, um tomista do século XX que possui uma filosofia da natureza muito interessante. E Wolfgang Smith, um matemático da atualidade que está fazendo um resgate da filosofia e da tradição aristotélica-tomista para dentro a filosofia da ciência.
Segundo Jacques Maritain, podemos fazer dois tipos de análises quando olhamos para um ente real: uma análise ontológica, de um ponto de vista metafísico, e uma análise empiriológica, do ponto de vista do empirismo, ou seja, como o ente se apresenta para nós com a nossa experiência sensível.
A análise empiriológica é dividida em dois tipos de análise. A primeira é a análise empirioesquemática, que é, por exemplo, o que a Biologia faz. Ao estudar Biologia na escola, você estudava esquemas celulares, por exemplo. Esses esquemas são montados para explicar um fenômeno real. Isso é o que Jacques Maritain chama de análise empirioesquemática.
A segunda é a análise empiriométrica, em que se usa um instrumento de medida para medir características corporais, como peso, altura, velocidade, momentum, etc. Ou seja, há essa meteria, essa medida que pode ser auferida.
E é exatamente nesse campo empiriométrico que a Física e a Matemática entram. Percebam que já estamos um pouco distantes do ente tal como ele se apresenta a nós na percepção, porque precisamos utilizar um instrumento de medida para chegarmos nas propriedades do objeto. Desse ponto de vista, olhamos para o ente tal como ele se apresenta para o instrumento de medida.
Assim, estamos olhando para o ente ou fenômeno da realidade do ponto de vista emiriométrico, ou seja, como ele se apresenta para um instrumento de medida. Aqui, não entram aspectos qualitativos, mas apenas os aspectos quantitativos. E é exatamente isso que acontece com as teorias físicas e matemáticas da Modernidade. Estamos, portanto, nesse nível empiriométrico do real.
Descartes: O problema da Bifurcação Cartesiana
Aqui é muito oportuno trazer o segundo filósofo que citei: Wolfgang Smith, que traz um problema para a Física e a Matemática moderna, chamado de o problema da bifurcação cartesiana.
Essa bifurcação acontece a partir de Descartes, que é um filósofo que rompe com a tradição aristotélica, platônica, escolástica, medieval, tomista, etc., e é considerado o pai da Modernidade. Nesse rompimento, ele exclui dos entes reais todas as suas outras categorias, focando apenas na quantidade. Ele diz que os aspectos quantitativos do real fazem parte do que chamamos de res extensa, ou seja, a parte extensiva do ente - que é verdadeiramente a única coisa real.
A cor do objeto, por exemplo, é um aspecto qualitativo. Você pode fazer uma análise minuciosa sobre ela e apresentá-la como ondas de luz, explicando o mecanismo de refração do seu olho etc., ou você pode explicá-la do ponto de vista empiriométrico. Mas não é a esse tipo de cor a que Descartes se referia e também não é o objeto desta aula. Aqui estamos falando da cor como um aspecto qualitativo tal como a percebemos no dia-a-dia, ou seja, quando eu vejo uma maçã vermelha, essa vermelhidão é uma qualidade própria dessa maçã específica - é nesse sentido.
Para Descartes, tudo o que é qualitativo está dentro da res cogitans, ou seja, existe subjetividade, pois tudo que é qualitativo está dentro de uma mente, não no ente real.
Essa bifurcação da realidade em parte extensiva e parte pensante entra na Modernidade e na metodologia científica, e o pensamento científico moderno passa a ser modelado conforme a res extensa, ou seja, veem a realidade como algo redutível à quantidade, e apenas isso é real, tudo mais é subjetivo. A Física e a Matemática estão exatamente nesse nível, que é o reino da quantidade, como o chamava René Guénon.
Nós experienciamos o mundo corpóreo que se apresenta a nós não apenas quantitativamente, sentimos o mundo da experiência sensível, da percepção imediata - percebemos uma árvore à nossa frente, quando caminhamos na rua. Isso é o que Wolfgang Smith chama de mundo corpóreo, que não é reduzível à modernidade. Nos termos de Wolfgang Smith, pelos instrumentos de medição da Física e da Matemática ficamos conhecendo o mundo (ou objeto) físico, ou seja, um objeto da Física.
A redução desse mundo ocorre quando você diz: “Você é apenas um amontoado de átomos.” Acreditar nisso é olhar para a res extensa cartesiana, esse aspecto empíreo-métrico da realidade, e reduzir você mesmo à essa característica.
O debate moderno sobre a inteligência artificial está inteiramente embasado nessas premissas cartesianas. Hoje, há um movimento dentro da academia para colocar em debate a ética uso dos robôs, e isso é uma redução - uma visão cartesiana - do homem. É olhar para mente humana, com seus aspectos qualitativos, e levar em consideração apenas a quantidade.
O Reducionismo Cientificista
Quando a neurociência, utilizando modelos matemáticos, diz que a sua memória e a sua capacidade cognitiva estão reduzidas a um processo de interação neural que acontece no cérebro, de acordo a um modelo estocástico, por exemplo, ela está reduzindo a sua mente ao seu cérebro. No fundo, nessa redução, estão as premissas cartesianas e maritanianas, nas quais a realidade se reduz ao reino da quantidade.
Estudar Matemática, desse ponto de vista da ciência, é de grande importância porque, por exemplo, se você conhece a função da Matemática do ponto de vista realista - que leva em consideração a existência das formas - você não reduziria a mente humana à matéria, pois sabe que existe uma característica imaterial.
Para deixar mais claro, vamos usar a própria Matemática como exemplo. Quando você acata o conceito de triangularidade, esse conceito está no seu intelecto, mas o que acontece quanto temos uma matéria e colocamos esse conceito de triangularidade na matéria? Teremos diante de nós um triângulo. Por exemplo, se você tem um papel e o recorta na forma da triangularidade nele, você ontem um triângulo.
O meu intelecto e a mente tem a capacidade de reconhecer e de captar esse conceito de triangularidade. Se a minha mente se reduzisse ao meu cérebro, ela seria completamente material, e o meu cérebro ao captar o conceito de triangularidade - conceito da Matemática - se transformaria no triângulo.
Se você percebe na Matemática essas características imateriais, você jamais cairia nesse tipo de argumentação reducionista. Por isso é importante olhar para a Matemática, estudá-la e perceber que tipo de argumentação está sendo usado na Modernidade - e, claro, não cair em linhas de pensamento semelhantes, além de poder entender de fato o que está acontecendo.
O terceiro motivo para se estudar matemática diz respeito às formas de se argumentar, pois, quando a estudamos, é preciso saber argumentar de forma correta. Lembrem-se do que falei sobre a síntese da Matemática grega e dos elementos de Euclides, pois, quando falei sobre esses dois temas, coloquei uma estrutura do pensar matemático, na qual tem as premissas iniciais, depois as inferências, e com essas inferências se chega, enfim, no conhecimento necessário.
Quando estudamos matemática, organizamos nosso raciocínio. Para demonstrar, por exemplo, o Teorema de Pitágoras, é preciso assumir previamente determinadas premissas acerca dos triângulos; o próximo passo é demonstrar aos causas das suas conclusões. Portanto, há uma cadeia argumentativa que você segue. E, quando você faz isso, você está treinando o seu intelecto e a sua capacidade de raciocínio para fazer a mesma coisa em outras áreas e em outros ramos do conhecimento.
Se você vê uma pessoa pública na Modernidade argumentando em prol de uma política ou qualquer outra coisa que lhe seja interessante, significa que existe alguma coisa que está sendo pressuposta na conclusão que ela apresenta. É preciso analisar se essa argumentação faz sentido ou não. Fica mais fácil, à medida em que você estuda Matemática, perceber essas premissas pressupostas.
Lembre-se da história que contei sobre o matemático Euler: é mais difícil de você ser enganado se você não sabe Matemática. Mas, ao contrário, quando você sabe, começa a perceber todas as premissas e raciocínios prévios que precisam ser admitidos para se chegar à conclusão que estão alegando, além de você poder se posicionar contra uma premissa que você rejeita - e mostrar seus argumentos.
A sua capacidade de articulação e argumentação aumenta, mas também aumenta a capacidade de perceber os argumentos do outro. Portanto, a Matemática se coloca também como uma disciplina que treina o seu raciocínio e a sua capacidade argumentativa.
Conclusão
Foram enlencados vários motivos para você estudar Matemática e falei um pouco sobre o que ela é e porque deveria ser estudada.
O conhecimento da Matemática é imutável, atemporal, perfeito, imaterial e, principalmente, necessário, porque há verdadeiramente a necessidade do seu conhecimento.
Além disso, ela se apresenta a você como um antídoto ao relativismo. Ao estudar Matemática, você estará vacinado contra o relativismo, e perceberá que existe, de fato, a verdade.
Com isso, você se perguntará se também não é possível que outras áreas do conhecimento tenham as mesmas características que tem a Matemática. Essa era pergunta que Platão fazia. Platão recomendava que as pessoas estudassem Matemática justamente por esse motivo.
Por que não existe essa necessidade no conhecimento da Ética? Por que não existe essa necessidade no conhecimento dentro da Política? Aristóteles e Platão pensavam que era possível, mas o mundo moderno já não pensa da mesma forma. Apesar disso, eu quero que vocês resgatem essa visão da Matemática enquanto capacidade de conhecer a verdade e estabelecer essas necessidades.